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Argemira Gomes da Silva, ou simplesmente dona Gemira
No Fio da Memória

Quem puxa o fio da nossa memória hoje é
Argemira Gomes da Silva, ou simplesmente dona Gemira: querida moradora de Piedade do Paraopeba há 98 anos, alguém que já percorreu bastante os caminhos do Vale, e atuou, de forma muito especial, na história da região.

Nascida em Piedade do Paraopeba em 26 de maio de 1921, Argemira é filha de Rosa Maria de Jesus- cuja mãe, Maria Lúcia de Jesus, fora escrava em uma propriedade em Piedade do Paraopeba- e de Quirino Francisco Gomes.


“Meus pais são de Piedade. Minha avó, Maria Lúcia, foi escrava em uma fazenda daqui, e criou quatro filhas sozinha. Quando terminou a escravidão, a Sinhá doou a ela um grande terreno que ia da esquina da igreja até a Fazenda Teodolino”.

A história de Dona Argemira perpassa a trajetória de vida de inúmeras pessoas da região do Vale do Paraopeba. Isto porque após ter trabalhado na mineração e aprendido em Belo Vale a costurar, Dona Gemira dedicou a vida à educação de crianças e adolescentes na região. Sobre sua carreira como educadora, ela nos conta:

“Aqui em casa todo mundo tinha que estudar. A primeira coisa que estudávamos era música. Eu toquei harmônico e cantava as missas. Depois que trabalhei na mineração e aprendi a costurar em Belo Vale, fui dar aula para alguns meninos no Rio do Peixe, em Nova Lima, ensinando a ler e a escrever”.

Após a experiência no Rio do Peixe, Argemira foi para Brumadinho estudar para se formar professora, conforme nos narra:

“Fui pra Brumadinho estudar o que a gente chamava na época de quarto ano. O curso era na Fazenda do Rosário. A princípio, eu e mais quatro amigas morávamos com a dona do Correio em Brumadinho, até mudarmos para uma república. Lembro que nesta época, a ponte ainda era de tábua e quando chovia a gente ficava de um lado esperando a água baixar. Ficamos lá entre 1944 e 1947, ano em que nos formamos”.

Logo após a formatura, em 1948, Argemira começou a trabalhar em Palhano lecionando naquela localidade até 1954.

“Trabalhei no Palhano de 1948 a 1954, lembro de muita gente boa que tinha lá, como o senhor Zeca, inspetor escolar, uma criatura muito boa.”
Argemira trabalhou como educadora em Palhano até se casar, quando foi trabalhar em Suzana, ficando por lá de 1955 a 1957.

“Morei com minhas duas filhas no grupo escolar de Suzana. Quando chegavam às sextas feiras, minha comadre Maria Pia, que trabalhava em Samambaia, me dava o cavalo pra voltar pra Piedade, eu colocava travesseiro no cavalo e vinha com as duas meninas. Quando meu marido ficou no Rio do Peixe, em 1955, fiquei sozinha em Suzana até retornar para Piedade na escola da prefeitura que foi construída”

Devota de Nossa Senhora da Piedade, Argemira participa do Jubileu dedicado à Santa (que no último mês de setembro completou sua centésima segunda edição) desde seu batizado, já que seus pais escolhiam sempre a data para o batismo dos filhos.

“Fui batizada no Jubileu. Vinha gente de todo lugar para a festa. Aqui em Piedade existiam sobrados bem antigos, que hoje não têm mais, todos ficavam cheios. A gente trabalhava para comprar vestido para ir à festa. Tinha barraquinha de bambu e piteira e a gente vendia brevidade, broa de fubá e pastel. O pessoal só voltava quando terminava a festa. As tropas traziam caixas cheias de panelas, mantimento, e, quando acabava o Jubileu, se ouvia a semana inteira os carros de boi indo embora, levando colchões”.

Desde a infância, Argemira escutava histórias sobre a chegada da imagem de Nossa Senhora da Piedade no distrito, lembranças que compartilha conosco.
“Quem contava a história da chegada de Nossa Senhora da Piedade era Sá Rosa, cujo pai e avô foram doadores da imagem. Ela dizia que eles foram pro Rio de Janeiro buscar a santa, que veio de Portugal de navio, com dois cavalos e alguns escravos. A viagem durou 90 dias e 90 noites. A nossa senhora chegou aqui em 1710, e então fizeram uma capelinha para ela. Sá Rosa dizia que o lugar que hoje ficou conhecido como “Lava Pé” aqui em Piedade foi porque quando eles estavam chegando, os senhores ordenaram aos escravos que colocassem a santa no chão e lavassem os pés, porque o arraial se aproximava. Daí veio o nome “Lava Pé”.

Quando a igreja ficou pronta para receber a imagem, em 1713, eles desmancharam a capelinha e plantaram um pé de pitanga no lugar. Quando a gente estudava na escola quais eram as coisas históricas da Piedade, sempre se falava da pitangueira. Na hora do recreio, todo mundo ia pra baixo do pé de pitanga, que era muito frondoso. Depois de um tempo eles cortaram a pitangueira que nunca, nunca devia ser cortada, porque além dela ser histórica, foi plantada onde desmancharam a capela que abrigou a Nossa Senhora da Piedade”.

Aos 98 anos, dona Argemira reside ainda hoje na casa em que nasceu e segue cultivando o gosto pela leitura, pela escrita e pela memória. E são muitas as memórias que ela tem a contar.

A História agradece!

Quer tecer esse fio da memória conosco? Envie-nos um relato para ameliapordentrodovale@yahoo.com.br.

 

 

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